Filantropia e impacto: mulheres liderando a mudança
A mudança leva tempo, mas as mulheres estarão lá para efetivá-la, com empatia, propósito e visão de longo prazo

Brasil em destaque: uma abordagem multi-ativos para a filantropia
Em uma conferência recente organizada pela Latimpacto — rede com mais de 600 agentes de mudança e doadores de toda a América Latina e Caribe — Fernanda de Arruda Camargo fez uma apresentação apaixonada em um painel sobre portfólios de impacto. Ela falou sobre o desmatamento devastador do Brasil e os incêndios que cobriam 60% do país no momento de sua fala. Camargo é cofundadora da Wright Capital Wealth Management, um multi-family office pioneiro no Brasil que integra serviços de investimento de impacto, com foco na transformação socioambiental, à sua oferta de serviços.
Ao lado do marido e cofundador Alexandre Lindenbojm, Camargo tem trabalhado cuidadosamente para incentivar famílias abastadas no Brasil a aumentarem seus investimentos de impacto. Isso é significativo porque, coletivamente, os 45 clientes da Wright Capital controlam 7 bilhões de reais, ou US$ 1,27 bilhão.
Camargo começa aos poucos, encorajando os clientes a se interessar e, eventualmente, investir em fundos de impacto social ou ambiental:
"Planejamos com todos os nossos clientes que 1% de seu patrimônio será investido em fundos de impacto socioambiental. Desde o início, explicamos que essa era uma nova classe de ativos que talvez não gerasse retorno de mercado, e que, no pior cenário, 1% não impactaria negativamente a vida desses clientes — mas ao longo de 10 anos, poderíamos coletivamente impactar milhões de vidas."
Quando iniciaram o negócio com essa abordagem, Camargo temia que não conseguiriam se sustentar, mas assim que conheceu quem se tornaria seu primeiro cliente e ele estava "totalmente alinhado", ela percebeu que havia sincronia e desejo pelo tipo de serviço que a Wright Capital oferecia.
Embora Camargo não considere seu trabalho na Wright Capital como filantropia em si — "Nosso trabalho é gerir patrimônio" —, o trabalho contínuo da Wright Capital para ajudar a desenvolver o campo no Brasil está abrindo caminho para que mais doadores e veículos filantrópicos se engajem no investimento de impacto, que já é uma ferramenta onipresente nos Estados Unidos e segue se expandindo globalmente. O relatório State of the Market 2024 da Global Impact Investors Network (GIN) mostra crescimento sustentado no número de operações de impacto fechadas pelas fundações respondentes. De 2023 a 2024, houve um aumento de 7% no número de operações — de 703 para 754.
Com o tempo, à medida que as famílias do portfólio de Camargo se acostumam com os investimentos de impacto — "é preciso haver tradução e entendimento", diz ela —, costumam aumentar o percentual de impacto em seus portfólios. Hoje, os clientes com maior interesse têm até 5% de seus ativos em fundos de investimento de impacto. Esse percentual só não é maior porque a maioria dos fundos no Brasil são fundos de venture, e tendemos a não concentrar o patrimônio dos clientes excessivamente nessa classe de ativos.
Além disso, o número de fundos de impacto intencional é limitado no Brasil. Recentemente, porém, surgiram fundos de crédito de impacto que oferecerão oportunidades adicionais de investimento.
Como observa Camargo, pode ser difícil para os doadores colocar o impacto à frente do retorno, e ainda há muito trabalho a ser feito: "Precisamos de uma taxonomia para trazer o mercado para esse espaço."
O nível de experiência necessário, o cuidado envolvido na seleção e os custos podem tornar o trabalho no espaço de investimentos de impacto um desafio, especialmente considerando os horizontes de longo prazo dos setores de natureza e clima que são o foco dos investimentos. A Wright Capital criou fundos de fundos (FoF) para simplificar o processo de investimento e apoiar o desenvolvimento do investimento de impacto no Brasil — o primeiro em 2016 e o segundo em 2021. Atualmente, está desenvolvendo um terceiro veículo, que alocará uma parcela maior em soluções baseadas na natureza, agricultura regenerativa e sistemas agroflorestais.
"Acreditamos que, se conseguirmos transmitir esse conhecimento para as famílias dos nossos clientes e por meio delas, poderemos mudar uma geração [no Brasil]. Esse é o sonho."
Ao mesmo tempo, a Wright Capital busca preparar os 95% restantes do patrimônio dos clientes para o futuro. Que tipo de futuro esses recursos estão apoiando por meio dos investimentos tradicionais? Camargo e seu marido tornaram-se defensores da integração de princípios ambientais, sociais e de governança (ESG) e de temas com foco climático nas estratégias de investimento. Hoje, oferecem mentoria a gestores de investimentos, incentivando-os a ter uma estratégia para um "novo mundo em que as externalidades têm peso e alguns setores podem não existir nos próximos anos".
Além de direcionar seus próprios recursos financeiros e os de terceiros para causas importantes, Camargo mobiliza outros ativos — como tempo e influência — para gerar mudança. Conhecida por realizar salões em sua casa, Camargo e seu marido usam seu capital social para reunir especialistas, financiadores e partes interessadas a fim de discutir questões complexas do Brasil e como abordagens filantrópicas e a colaboração podem funcionar como capital catalisador. Camargo é uma voz proeminente no investimento de impacto no Brasil, atuando em 11 grupos de trabalho, redes e conselhos, além de mentora. Faz parte do conselho de três organizações brasileiras dedicadas à natureza e ao bem-estar:
- Fundação Grupo Boticário — fundação corporativa que apoia a conservação da natureza e a promoção de soluções baseadas na natureza que protegem ecossistemas e comunidades;
- Instituto Cactus — organização filantrópica sem fins lucrativos que financia advocacy de políticas públicas e inovação na área de saúde mental;
- Instituto Água e Saneamento — organização da sociedade civil que trata de água limpa e saneamento sob uma perspectiva de direitos humanos.
Ao ser perguntada sobre o que a inspira a dedicar seu tempo profissional e pessoal a esses objetivos, Camargo respondeu:
"Penso no meu filho e nas outras crianças que viverão nesta Terra quando não estivermos mais aqui, e penso no que estamos deixando para elas. No Brasil, vivemos com enorme desigualdade. Vejo comunidades e populações vulneráveis e penso no talento e potencial que não estamos apoiando. Acredito no poder do exemplo. Acredito que a atitude e as escolhas de cada pessoa podem inspirar outros a seguir o mesmo caminho. Essa é a minha esperança!"
(tradução das páginas 137 a 140 do Business Families Insight 2025)


