ESG

A floresta como ativo de investimento estratégico para a economia verde

Um em cada quatro brasileiros já foi afetado por tragédia ambiental. Estudo mostra potencial de US$ 150 trilhões no valor das florestas e destaca a bioeconomia como caminho para gerar renda e mitigar mudanças climáticas.

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O Estado de São Paulo
08 Aug 2025

Segundo um levantamento feito pela Nexus e Movimento União BR, um em cada quatro brasileiros já viveu ou conhece alguém que foi impactado por uma tragédia ambiental. O Brasil tem 2600 cidades em risco alto ou muito alto para desastres naturais – como seca, inundações e deslizamentos de terra – ou possíveis impactos causados pela chuva, seca ou segurança alimentar, segundo dados do AdaptaBrasil, uma ferramenta elaborada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

É impossível não se assustar ao olhar os gráficos do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres:

A nova fronteira de investimento: ativos florestais, bioeconomia e empregos verdes (Foto: Sistema Integrado de Informações sobre Desastres – S2iD)

Nos últimos meses, vimos os incêndios florestais em Los Angeles, com prejuízo estimado em US$ 53 bilhões (R$ 297 bilhões); um terremoto de magnitude 7,7 em Mianmar, que somou perdas de US$ 12 bilhões; e as inundações de julho no Texas, que tiveram impactos significativos de até US$ 1,1 bilhão, de acordo com a seguradora Cotality, e causaram a morte de mais de 130 pessoas.

Três dias atrás, uma enchente relâmpago deixou quatro mortos e mais de 100 pessoas desaparecidas em Uttarakhand, na Índia.

À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, é cada vez mais crucial que o mercado leve em conta os custos associados ao aumento da temperatura média global.

A seguradora Munich Re estimou que, só nos primeiros 6 meses de 2025, o mundo já sofreu cerca de US$ 131 bilhões (R$ 733 bilhões) em perdas relacionadas às mudanças climáticas.

Quanto custam os desastres ambientais?

No primeiro semestre, no Brasil, as perdas chegaram a US$ 5,355 bilhões – 80% das perdas da América Latina, de acordo com relatório da empresa de resseguros AON. Esse valor foi impulsionado por tempestades severas, seca prolongada e enchentes.

Nesse contexto, o meio ambiente pode ser visto como um grande gerador de prejuízos, tanto monetários quanto sociais.

A preservação da natureza, por sua vez, também é muitas vezes vista como um grande gasto ou entrave ao desenvolvimento socioeconômico.

No final de julho, a pedido do presidente dos EUA Donald Trump, o diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA) Lee Zeldin, revogou a base legal que regula as emissões de carbono – o chamado endagerment finding, constatação científica de 2009 que determina que os gases de efeito estufa são riscos à saúde da população. Segundo Zeldin, a lei estava levando “o país à falência em nome da justiça ambiental”.

No Brasil, em julho, o Congresso aprovou o Projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza a necessidade de aprovação para obras “estratégicas”.

O Brasil deve ser exemplo para o mundo

É muito importante mudar essa visão. Na verdade, a proteção de ativos ambientais tem imenso potencial de retorno financeiro, além de ajudar na mitigação das mudanças climáticas e na redução de riscos.

No Brasil, onde temos um imenso patrimônio natural, é um erro ignorar as oportunidades de investimento focadas na preservação de florestas vivas ou regeneração de terras degradadas – que podem ajudar a dobrar nossa produção agrícola sem desmatar.

“Estima-se que o país tenha 55% de áreas de pastagens degradadas (97,7 milhões de hectares), sendo 53,4 milhões com degradação intermediária, frente a 66,38 milhões de hectares agricultáveis.”

De acordo com a Climate Policy Initiative, já somos líderes mundiais em financiamento climático, que cresceu 84%, contra 26% na média mundial, entre 2021 e 2022. Mesmo assim, ainda ignoramos nosso capital natural. A maior parte dos investimentos foi concentrada em transição energética, embora o Brasil já tenha 83% de sua matriz proveniente de energia limpa. O setor de Agropecuária, Florestas, Outros Usos da Terra e Pesca (AFOLU) recebeu apenas 11% do financiamento, apesar de ser responsável por dois terços das nossas emissões e ter enorme impacto econômico e ambiental.

Muitas vezes vistos apenas como commodities para extração, nossos ativos naturais têm imenso potencial estratégico se mantidos e explorados de forma regenerativa.

“Enquanto a economia global busca a descarbonização, o Brasil pode transformar a floresta em pé em fonte de receita, empregos e competitividade internacional, ao incentivar a bioeconomia e as soluções baseadas na natureza”

Eventos que fazem a diferença

Nos dias 30 e 31 de julho, o Pacto Global da ONU e a gestora KPTL reuniram investidores, empreendedores, Organizações Não Governamentais (ONGs), pesquisadores e agentes do setor público em Manaus, na segunda edição do Bioeconomy Amazon Summit. Lá, discutiram-se pautas sobre o potencial de crescimento de uma economia produtiva e verde na região, voltada para enfrentar a crise climática e estimular o desenvolvimento socioeconômico.

Entre as mais de 150 startups presentes, foi possível conhecer um ecossistema dinâmico de produtos naturais produzidos de forma regenerativa, soluções tecnológicas de monitoramento espacial e geográfico, incubadoras de inovação e colaborações entre saberes locais e padrões internacionais.

A socio-bioeconomia, principal ponto de discussão no evento, é definida pelo Fórum Econômico Mundial como um conceito que busca cadeias produtivas sustentáveis, protege a herança genética local, estimula a criação de empregos e geração de renda, e se posiciona como solução de adaptação climática.

Hoje, a floresta é vista sob três perspectivas:

  • Como responsabilidade moral;
  • Como trava ao desenvolvimento via desmatamento;
  • Como fonte de renda por meio de créditos de carbono.

Apesar do potencial do mercado de créditos de carbono e da necessidade desse instrumento para ajudar na redução de emissões em setores hard-to-abate(cimento, aço, alumínio, química e transporte de longa distância), o potencial das nossas florestas vai muito além disso.

No TED Talk “Put a value on nature”, de 2011, Pavan Sukhdev argumenta queatribuir um valor monetário aos recursos naturais pode impulsionar uma melhor gestão ambiental. Ele destaca que:

A não contabilização dos benefícios econômicos dos ecossistemas leva à sua subvalorização e degradação.

Como “banqueiro da natureza”, Sukhdev apresenta dados sobre custos ocultos de atividades que degradam recursos naturais, como o desmatamento e a poluição. Mesmo serviços aparentemente simples, como a polinização por abelhas – estimada em US$ 190 bilhões anuais -, são ignorados nas decisões econômicas, destrincha a organização governamental (ORG) Why Green Economy?.

O discurso sugere que, ao compreender o verdadeiro valor econômico do capital natural, podemos abandonar o modelo que prioriza ganhos de curto prazo em detrimento da saúde ecológica de longo prazo. Sukhdev defende a criação de “Contas de Capital Natural”, para rastrear o valor dos recursos ambientais junto às métricas financeiras tradicionais.

Florestas passam dos US$ 150 tri em valor monetário

Em uma tentativa de precificar o valor monetário das florestas globais, a consultoria BCG estima que ele possa chegar a US$ 150 trilhões – quase o dobro do valor do mercado de capitais mundial – considerando captura de carbono, regulação de sistemas hídricos, geração de renda e biodiversidade. Um estudo sobre a Amazônia brasileira sugere valor de até US$ 524 por hectare ao ano.

As Soluções Baseadas na Natureza (SBNs) oferecem serviços para mitigação e adaptação climática, regeneração de solos degradados, sistemas agroflorestais e outros, gerando também retornos financeiros. Entre as atividades produtivas potenciais estão o cultivo de Produtos Florestais Não Madeireiros (NTFPs) – frutos, sementes, castanhas, óleos, resinas, látex, plantas medicinais -, sistemas agroflorestais (SAFs), ecoturismo e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que recuperam pastagens degradadas e aumentam a produtividade de serviços ecossistêmicos.

“Além do potencial econômico, a bioeconomia pode reduzir desigualdades e gerar empregos.”

Segundo o World Resources Institute, só na Amazônia Legal há potencial para 365 mil novos postos de trabalho. Uma análise da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), indica que empregos verdes beneficiam principalmente mulheres.

A necessidade de repensar nossa economia para torná-la mais verde e explorar as oportunidades dos ecossistemas é clara. O mundo está mudando. Ou mudamos com ele, ou ficamos para trás. É essencial reestruturar modelos de negócios, cadeias produtivas e estratégias de investimento de forma sustentável e justa.

Como destacou meu amigo indiano Sanjay Purohit, especialista em mudanças exponenciais:

“Podemos começar com um sistema de valores, usar as leis da biologia, criar políticas públicas e infraestruturas compartilhadas. No modelo atual, aprendemos a criar fazendas; agora precisamos aprender a criar florestas. Criar florestas tropicais, onde todos pertencemos. Devemos trazer as florestas de volta à vida. E onde estaríamos nós no meio da floresta? Deveríamos ser os rios… porque o conhecimento flui. Devemos manter a floresta crescendo, compartilhando conhecimento. Deveríamos aprender com as árvores. As árvores nos dão os frutos, mas nunca perguntam o que você vai fazer com eles.”
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O Estado de São Paulo

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